A castração de cães e gatos deixou de ser uma indicação automática e passou a exigir uma análise criteriosa de múltiplos fatores.
Idade, sexo, raça, porte, ambiente, histórico familiar, condições de saúde e até o contexto social e financeiro dos tutores influenciam diretamente a escolha do método mais adequado.
Nesse cenário, as alternativas não cirúrgicas ganham espaço como ferramentas complementares à gonadectomia tradicional, sem, no entanto, substituí-la em todos os casos.
Quem detalha esse novo panorama é a médica-veterinária Fernanda Machado Regazzi do Hospital Veterinário Taquaral, doutora em Neonatologia (Reprodução) pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP) e coordenadora da Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (ANCLIVEPA-SP).
Segundo ela, a Medicina Veterinária vive um momento de transição, no qual a pergunta central deixa de ser apenas “castrar ou não”.
“Hoje, a decisão envolve responder quando castrar e por qual método, reconhecendo que a escolha pode variar profundamente entre espécies, sexos, raças, fases da vida e contextos sociais”, afirma Fernanda.
Apesar da evolução das alternativas químicas e hormonais, a ação cirúrgica mantém um papel central em situações específicas.
Em abrigos, populações errantes e regiões com superlotação de animais, o objetivo prioritário é impedir a reprodução de forma definitiva, segura e economicamente viável.
Nesses contextos, a recomendação internacional de castração entre oito e 16 semanas continua sendo a estratégia mais eficaz para controle populacional em larga escala.
A limitação de acompanhamento pós-operatório, a logística complexa e o custo de métodos reversíveis tornam implantes e técnicas experimentais pouco viáveis.
“Em programas populacionais, o benefício coletivo da gonadectomia precoce supera os riscos individuais, mesmo sabendo que existem efeitos metabólicos e ortopédicos associados”, explica a especialista.
Além disso, há situações clínicas nas quais a retirada do útero é mandatória, como nos casos de piometra, hiperplasia endometrial cística, tumores uterinos ou histórico reprodutivo desconhecido em fêmeas adultas.

Técnicas que preservam hormônios e ampliam as possibilidades
Dentro das opções cirúrgicas, surgiram abordagens que impedem a reprodução sem eliminar a produção hormonal.
A histerectomia, por exemplo, remove apenas o útero, preservando os ovários. Essa técnica pode ser particularmente interessante para fêmeas jovens não domiciliadas, que precisam ser encaminhadas para adoção antes de um ano de idade.
Já a vasectomia e a histerectomia garantem o ambiente hormonal intacto, preservam o desenvolvimento musculoesquelético e evitam efeitos associados à retirada precoce dos hormônios.
No entanto, essas técnicas também mantêm condutas e manifestações hormonais, como cio e pseudogestação, o que exige avaliação cuidadosa.
“A manutenção hormonal pode ser benéfica em alguns indivíduos, especialmente cães jovens de raças grandes e gigantes, mas não elimina todas as implicações clínicas e comportamentais”, ressalta Regazzi.

Implantes hormonais: como funcionam e quando indicar
Entre as alternativas não cirúrgicas, os implantes hormonais à base de agonistas de GnRH, como a deslorelina, consolidaram-se como uma opção reversível ao procedimento cirúrgico.
Diferentemente da gonadectomia, esses implantes modulam o eixo reprodutivo de forma temporária, sem remoção de órgãos.
Após a aplicação subcutânea, ocorre inicialmente um estímulo intenso dos receptores hipofisários, seguido de dessensibilização.
Como resultado, há supressão da produção de LH e FSH, levando à queda significativa de testosterona em machos e de estradiol e progesterona em fêmeas, com infertilidade temporária.
Nos machos, observa-se bloqueio da espermatogênese, redução do volume testicular e diminuição de condutas dependentes de testosterona.
Em fêmeas pré-púberes, o método pode atrasar de forma significativa o início da puberdade, sem prejuízo ao desenvolvimento físico.
“A grande vantagem dos implantes é a reversibilidade. Após o fim do efeito, a fertilidade retorna, o que permite testar a supressão hormonal antes de optar por uma medida definitiva”, destaca a veterinária.
O acompanhamento é essencial, especialmente porque a fecundidade pode retornar gradualmente. Deste modo, a avaliação de testosterona, o exame clínico e a observação são fundamentais para determinar o momento do reimplante.
Efeitos comportamentais e limitações das alternativas hormonais
A redução hormonal, seja por cirurgia ou por implantes, tende a diminuir atitudes dependentes de hormônios sexuais, como marcação urinária, fuga e hipersexualidade.
No entanto, nem todo problema comportamental tem origem hormonal. A doutora reforça que agressividade, ansiedade e reatividade social são multifatoriais e raramente resolvidas apenas com supressão hormonal.
Em alguns casos, inclusive, o flare-up inicial dos implantes pode provocar piora temporária de certas condutas.
“Métodos reversíveis são preferíveis quando há dúvida sobre o impacto da retirada hormonal, mas não substituem a avaliação de um especialista em comportamento”, conclui Fernanda.

FAQ sobre alternativas não cirúrgicas de castração
As possibilidades não cirúrgicas substituem a cirurgia tradicional de castração?
Não. Elas ampliam as opções de manejo reprodutivo, mas não substituem a gonadectomia em cenários como controle populacional em massa, abrigos ou situações clínicas que exigem a retirada do útero ou testículos.
A fertilidade pode retornar de forma inesperada com implantes hormonais?
Sim. Como se trata de um método reversível, ela retorna gradualmente após o fim da eficácia. Por isso, o acompanhamento clínico e hormonal é essencial para evitar reproduções indesejadas.
Implantes resolvem problemas comportamentais?
Eles reduzem condutas dependentes de hormônios sexuais, como marcação e fuga, mas não tratam alterações comportamentais multifatoriais.
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