A valorização de raças de gatos com aparência considerada exótica ou diferenciada tem crescido nos últimos anos.
No entanto, esse movimento também trouxe à tona uma discussão importante dentro da Medicina Veterinária e do bem-estar animal: até que ponto a seleção estética pode comprometer a saúde e a qualidade de vida dos animais?
Raças como Sphynx e Scottish Fold tornaram-se símbolos desse debate por apresentarem características físicas marcantes que, segundo evidências científicas, estão associadas a alterações fisiológicas e doenças de origem genética.
A discussão ganhou ainda mais visibilidade recentemente após decisões regulatórias adotadas em alguns países europeus, como a Holanda, baseadas em pareceres técnicos sobre sofrimento animal.
Sphynx: ausência de pelos exige cuidados contínuos
O Sphynx é conhecido pela ausência quase total de pelos, característica resultante de uma mutação genética que passou a ser selecionada intencionalmente na criação da raça.
Embora essa condição não seja considerada uma doença por si só, ela interfere em funções importantes do organismo felino.
A pelagem atua na termorregulação, proteção contra radiação solar, agentes físicos e micro-organismos. Sem essa barreira natural, os gatos Sphynx apresentam maior predisposição a alterações como:
- dificuldade em manter a temperatura corporal;
- maior risco de queimaduras solares;
- acúmulo de oleosidade na pele, favorecendo dermatites;
- necessidade de banhos frequentes e manejo constante da pele.
“A ausência de pelos torna o Sphynx mais vulnerável a fatores ambientais e exige uma rotina de cuidados que não é necessária para gatos com pelagem normal”, afirma Ana Luiza Nunes, médica-veterinária especialista em tratamentos dermatológicos com ozonioterapia.
Segundo entidades internacionais de cuidado felino, embora muitos indivíduos possam viver por longos anos, a raça depende de manejo rigoroso e acompanhamento veterinário frequente para evitar complicações dermatológicas e térmicas.
“Não se trata apenas de aparência: estamos falando de uma condição genética que altera a forma como o animal interage com o ambiente ao longo de toda a vida”, destaca a profissional.
Scottish Fold: orelhas dobradas e alterações sistêmicas
No Scottish Fold, a principal característica estética — as orelhas dobradas para frente — é consequência de uma mutação genética dominante que afeta o desenvolvimento da cartilagem. O problema é que essa alteração não se restringe às orelhas.
Estudos científicos demonstram que essa mutação está associada à osteocondrodistrofia, uma doença que compromete ossos e articulações, podendo causar:
- rigidez articular;
- alterações ósseas progressivas;
- diminuição da mobilidade;
- dor crônica, muitas vezes silenciosa.
“A mutação responsável pela dobra das orelhas está diretamente ligada a alterações cartilaginosas em todo o esqueleto do animal”, explica Nunes.
Mesmo indivíduos que apresentam sinais leves quando jovens podem desenvolver quadros mais graves ao longo da vida, especialmente com o avanço da idade.
“Não existe Scottish Fold completamente livre do risco de desenvolver alterações osteoarticulares, pois a característica estética da raça depende exatamente da mutação associada à doença”, reforça a especialista.
Por esse motivo, diversas associações veterinárias internacionais desaconselham a reprodução da raça, independentemente do cruzamento adotado.

Criação responsável ou sofrimento evitável?
O debate sobre Sphynx e Scottish Fold divide opiniões entre criadores, tutores, médicos-veterinários e entidades de proteção animal.
Defensores dessas raças argumentam que nem todos os indivíduos desenvolvem problemas clínicos graves e que, com manejo adequado, é possível garantir boa qualidade de vida.
Outro ponto levantado é o risco de que restrições severas levem à criação clandestina, sem controle genético ou sanitário.
Por outro lado, especialistas em bem-estar animal defendem que a seleção de características associadas a doenças crônicas configura sofrimento previsível e evitável.
“Quando uma característica estética está diretamente ligada a dor, limitação funcional ou necessidade de cuidados constantes, é preciso questionar a ética da sua perpetuação”, afirma Nunes.
Esse entendimento tem orientado decisões regulatórias em países como a Holanda, onde autoridades passaram a restringir a criação e comercialização dessas raças com base em evidências científicas e pareceres veterinários.
Um debate que envolve ciência, ética e responsabilidade
A discussão sobre as raças Sphynx e Scottish Fold vai além de preferências pessoais.
Ela envolve dados científicos, princípios éticos e o papel da criação seletiva na saúde dos animais domésticos.
À medida que mais evidências demonstram a relação entre determinadas características físicas e problemas de saúde, cresce a necessidade de refletir sobre os limites da intervenção humana na seleção genética de cães e gatos.
“O desafio está em equilibrar o interesse humano por determinadas raças com a obrigação moral de não causar sofrimento evitável aos animais”, conclui a veterinária.

FAQ sobre Sphynx e Scottish Fold
A ausência de pelos do Sphynx é considerada uma doença?
Não, mas é uma condição genética que aumenta a vulnerabilidade a problemas de pele, temperatura e infecções.
Todo Scottish Fold sente dor ao longo da vida?
A mutação genética da raça está associada a alterações ósseas e articulares, com risco real de dor crônica progressiva.
Por que essas raças são alvo de debate ético?
Porque suas principais características estéticas estão ligadas a alterações genéticas que podem comprometer o bem-estar animal.
LEIA TAMBÉM:
Holanda proíbe gatos sphynx e scottish fold por questões de bem-estar animal


