A Peritonite Infecciosa Felina (PIF) está entre as doenças de gatos mais graves. Além do seu potencial fatal, representa dois desafios para os médicos-veterinários: a dificuldade em chegar a um diagnóstico e a ausência de registro e aprovação oficial para uso veterinário da medicação para o tratamento no Brasil.
A médica-veterinária especializada em Medicina Felina e Oncologia veterinária, Érica Baffa, relata que a PIF é uma enfermidade viral grave, sistêmica e imunomediada, que afeta felinos domésticos e selvagens.
“A PIF surge quando o Coronavírus Entérico Felino (FECoV), que geralmente causa infecções entéricas leves e autolimitantes, sofre uma mutação dentro do organismo do animal, se transformando em FCoV. O FCoV é o biótipo virulento, que carrega o Vírus da PIF (VPIF) e adquire a capacidade de se replicar dentro dos macrófagos/monócitos e se disseminar pelo organismo”, explica.
Diferente do que muitos pensam, a Peritonite Infecciosa Felina não é uma doença infectocontagiosa, ou seja, não é transmitida entre gatos.
“O que é altamente contagioso é o vírus que a causa, o Coronavírus Entérico Felino (FCoV), que é transmitido, principalmente, pela via fecal-oral através do contato com fezes contaminadas, fômites e compartilhamento de caixas de areia”, esclarece.
Quando ocorre a ingestão do FCoV, o vírus se replica, especialmente, nas células do intestino (enterócitos) e, em um pequeno número de gatos, sofre uma ou mais mutações genéticas, que alteram a sua capacidade de replicação.
“A mutação acontece em felinos predispostos geneticamente. Neles o vírus mutado (VPIF) ganha a capacidade de infectar e se replicar dentro dos macrófagos e monócitos, que são células de defesa. Mesmo assim, o vírus não é transmitido para outros animais”, pontua a veterinária.
Quem são os mais acometidos?
Érica comenta que a doença possui maior incidência em gatos jovens, apresentando pico de desenvolvimento entre três meses e três anos de idade. “Alguns estudos relatam que 70% a 90% dos gatos com PIF têm menos de dois anos”, cita.
Com relação às raças mais predispostas, pesquisas apontam como principais: birmanês, ragdoll, bengal, himalaio, abissínio e rex, incluindo também o devon rex e o cornish rex.
“Acredita-se que esta predisposição se deve à consanguinidade (endogamia) e à baixa diversidade genética em certas linhagens de criação, que pode levar a aumento da susceptibilidade à infecção pelo FCoV por conta de defeitos na resposta imunológica mediada por células”, relata.
A profissional também complementa informando que machos não castrados parecem ter uma frequência ligeiramente maior ao desenvolvimento da PIF. De acordo com ela, a não castração pode gerar um impacto negativo na função imunológica, além do fato de que machos intactos em ambientes de grupo podem exibir um comportamento mais territorial e estressante, aumentando o risco de infecção/mutação.
Já na sua rotina, felizmente, não há uma grande incidência. “A ocorrência é variável. Observo mais a presença de PIF em animais que residem em casas multicats ou com superpopulação de gatos, como gatis e abrigos”, relata.
Também pontua que a enfermidade é comum em locais estressantes para os felinos, visto que o estresse pode levar a imunossupressão transitória, aumentando o risco de mutação e manifestação clínica da PIF após a infecção pelo FCoV.
Além disso, há ainda maior ocorrência em gatos imunossuprimidos, como os portadores de FeLV, por exemplo.
Diagnóstico é um desafio
Os sinais clínicos da Peritonite Infecciosa Felina são inespecíficos. Geralmente, os animais manifestam febre persistente não responsiva a antibióticos, letargia, perda de apetite e perda de peso.
Como esses sinais podem ser confundidos com o de inúmeras outras condições, nem sempre a PIF é considerada rapidamente. No entanto, exames podem ajudar a chegar a um diagnóstico.
“Algumas alterações fazem com que pensemos na doença, como aumento de bilirrubinas, relação albumina globulina de líquido livre menor que 0,4 e presença de icterícia, anemia, efusão abdominal ou torácica e granulomas. Contudo, atualmente quando estamos em frente a PIF úmida, o PCR quantitativo de Coronavírus Entérico Felino é o exame que mais utilizamos”, afirma a especialista.
Inclusive, mesmo essa não sendo uma doença transmissível entre gatos, são indicados alguns cuidados perante a suspeita ou confirmação da enfermidade.
Segundo Baffa, felinos com PIF não podem sofrer estresse ambiental e, como o Coronavírus Felino (FCoV) é transmitido, principalmente, pela via fecal-oral, é preciso evitar a contaminação através de práticas de manejo ambiental.
“A higienização rigorosa é fundamental. Para isso deve-se limpar as caixas sanitárias e mantê-las longe dos potes de comida e água para prevenir a contaminação. Também indico reduzir aglomerações de felinos e, se houver um animal doente/suspeito, é essencial separar as caixas sanitárias”, aconselha.


