O estresse e a ansiedade em gatos vão muito além das alterações comportamentais, tendo um efeito importante na saúde desses animais. No entanto, eles possuem gatilhos estressores diferentes dos cães, sendo necessário conhecê-los a fundo para tratar ou prevenir o problema.
A médica-veterinária pós-graduada em Etologia Clínica Veterinária e certificada pelo programa Fear Free for Pets, Bárbara Georgetti, explica que os aspectos que desencadeiam estresse em felinos variam muito entre os indivíduos.
“Dentre os mais comuns estão um ambiente não adaptado para as necessidades felinas, conflitos com outros gatos, alterações na rotina da casa, idas ao veterinário e dor ou desconforto físico. No entanto, mais importante que o estímulo em si é a imprevisibilidade e a falta de controle desse estímulo. Aqui a sensação de controle é essencial. Quando o gato perde a possibilidade de escolher, evitar, antecipar ou modular a situação, ocorre a ativação do sistema de resposta à ameaça”, explica.
Dessa forma, mudanças repentinas, falta de esconderijos, ausência de pontos elevados e alterações bruscas de rotina diminuem sua capacidade de se orientar e controlar a exposição aos estímulos.
No mesmo sentido, a convivência com outros gatos é fonte importante de estresse.
“A ideia de que “gatos precisam de outros gatos” é um mito. Eles podem formar grupos, mas isso depende de compatibilidade, espaço adequado e quantidade de recursos disponíveis. Quando essas condições não existem, a presença de outro felino pode ser uma fonte contínua de tensão, mesmo quando não há agressões explícitas. Ver gatos pela janela ou no muro também pode gerar insegurança territorial. Não por acaso, a agressividade entre os animais da mesma casa é uma das queixas mais comuns em atendimentos comportamentais”, relata.
Somado a tudo isso, Georgetti afirma que doenças e desconfortos físicos também são desencadeadores importantes de estresse. Dor, prurido, náusea, problemas urinários e outras condições reduzem a tolerância do gato a estímulos ambientais e sociais.
Postura corporal é um sinal importante
De acordo com a médica-veterinária, o corpo do felino é extremamente expressivo e costuma refletir, de maneira clara, o nível de tensão do momento mesmo quando o animal permanece silencioso ou aparentemente imóvel.
“As orelhas são um dos primeiros indicadores e tendem a ficar lateralizadas ou voltadas para trás quando o gato está desconfortável. A musculatura facial se contrai, especialmente na região entre os olhos, fazendo com que eles fiquem semicerrados. Os bigodes também mudam de posição, se apresentando mais espaçados e projetados para a frente. Já as pupilas podem se dilatar tanto por aumento da excitação, quanto por mobilização do sistema de resposta ao estresse”, exemplifica.
Outro marcador importante é o rabo. Esse pode permanecer bem colado ao corpo ou para o alto com aspecto eriçado e, também, apresentar movimentos rápidos e fortes, como o movimento de “chicote”, indicando aumento de tensão.
Ainda conforme Bárbara, em situações de estresse intenso o gato pode alterar todo o volume corporal: alguns se contraem, diminuindo a silhueta e tentando parecer menores, enquanto outros “aumentam de tamanho”, arqueando as costas e eriçando os pelos. Essas mudanças são rápidas e refletem o estado emocional do animal com grande precisão.
Além disso, o estresse e a ansiedade são capazes de modificar os comportamentos naturais dos felinos. Como esses animais são rotineiros, qualquer variação no padrão habitual, tal como, dormir mais em locais escondidos, explorar ou brincar menos, evitar determinados cômodos e deixar de interagir com tutores, deve ser interpretada como um sinal relevante.
Ansiedade requer atenção
Nos felinos a ansiedade pode ser observada tanto na forma pontual, ou seja, desencadeada por situações específicas, quanto generalizada, no qual o gato permanece em alerta constante mesmo sem um gatilho claro.
Contudo, muitos dos seus sinais são mal interpretados e considerados “normais” pelos responsáveis pelos animais e veterinários, pois a espécie é altamente sensível a mudanças, depende fortemente de previsibilidade e de controle sobre o próprio ambiente e tende a mascarar sinais de desconforto emocional.
“Quadros de ansiedade, frequentemente, passam despercebidos até que o comportamento do gato já esteja significativamente alterado ou que surjam sinais fisiológicos relacionados ao estresse crônico. Situações comuns do cotidiano, como reorganização da casa, chegada de visitas, interações inconsistentes com o tutor, conflitos sociais com outros gatos ou visitas ao veterinário, podem criar um ambiente de incerteza suficiente para desencadear ansiedade nesses animais”, comenta a especialista.
Por mais que muitos gatilhos de estresse também possam desencadear ansiedade nos felinos, alguns medos comuns, como barulhos súbitos e fogos de artifício, assim como experiências traumáticas, desempenham um papel importante nesses quadros.
“Com isso, os principais gatilhos incluem tanto fatores ambientais, que reduzem segurança e controle, quanto estímulos específicos associados a medo, falta de socialização adequada na infância e experiências negativas que ensinaram ao gato a esperar que algo ruim aconteça naquela situação”, pontua.
Por outro lado, ainda existem debates quanto à ansiedade de separação nos felinos. Georgetti afirma que esse problema é relatado na literatura, mas é menos comum do que em cães. Como consequência, há menor conhecimento sobre o tema na espécie.


