Atenção crescente ao papel da microbiota intestinal em pacientes com câncer tem impulsionado pesquisas na Medicina Veterinária, ainda que grande parte das evidências venha da Medicina Humana.
Em entrevista concedida durante o Ganepão Pet 2025, evento realizado no dia 13 de junho, em São Paulo, a médica-veterinária Juliana Cirillo destacou como o desequilíbrio intestinal — ou disbiose — pode impactar diretamente o desenvolvimento e a progressão de diferentes tipos de neoplasias em cães e gatos.
“Pacientes com disbiose apresentam maior risco de desenvolver câncer e, quando diagnosticados, têm piores desfechos clínicos, com redução da sobrevida”, alertou Cirillo.
Segundo a especialista, já existem estudos em animais de companhia associando disbiose a neoplasias específicas, como linfoma multicêntrico, linfoma intestinal, tumores de cavidade nasal, astrocitomas e câncer de mama em cadelas. Apesar disso, ainda são escassas as pesquisas que relacionam a modulação da microbiota com a resposta aos tratamentos oncológicos em pets — lacuna já preenchida na medicina humana.
“Em humanos, intervenções como probióticos, prebióticos, dietas ricas em fibras e até o transplante de microbiota fecal têm sido usadas como coadjuvantes ao tratamento oncológico, com ganhos na eficácia terapêutica e na redução de efeitos adversos, especialmente gastrointestinais.”
Essa perspectiva ganha importância na clínica veterinária, sobretudo porque a quimioterapia em pets frequentemente gera sintomas como diarreia e inapetência. Cirillo ressalta que dietas formuladas com foco na saúde intestinal — como as enriquecidas em fibras ou suplementadas com bioterapêuticos — podem ser estratégias relevantes para minimizar esses efeitos colaterais e melhorar a qualidade de vida dos pacientes oncológicos.
Além disso, a especialista reforça que a disbiose intestinal pode agravar quadros como a caquexia do câncer, síndrome paraneoplásica caracterizada por perda de peso e de apetite.
“Quando há disbiose, todas as características da caquexia ficam mais acentuadas. A inflamação é maior. Do ponto de vista nutricional, já temos estratégias possíveis na veterinária para combater essa disbiose e melhorar o estado nutricional, promovendo ganho de peso, apetite e qualidade de vida”, afirmou.