As leis de responsabilidade estendida do produtor — modelo que atribui às empresas o custo da coleta e reciclagem das embalagens que colocam no mercado — deixaram de ser apenas tema de debate e já avançam para a legislação e o planejamento operacional nos Estados Unidos.
Para fabricantes de alimentos para cães e gatos e fornecedores de embalagens, o impacto começa a se tornar concreto.
A lógica é simples: em vez de transferir a maior parte dos custos para governos locais e contribuintes, as empresas passam a financiar a coleta, a triagem e a reciclagem dos produtos que fabricam e comercializam.
No setor pet, essa mudança atinge principalmente as embalagens, muitas delas ainda com reciclagem limitada.
Impactos diretos nas embalagens de pet food
No caso da alimentação seca, os produtos costumam ser embalados em sacos flexíveis de alta performance, desenvolvidos para proteger contra umidade, oxigênio e pragas.
Já os alimentos úmidos, tradicionalmente vendidos em latas de alumínio, vêm ganhando novas apresentações, como bandejas plásticas e pouches, que nem sempre são aceitos na coleta seletiva domiciliar.
Os programas de responsabilidade estendida do produtor tendem a incentivar o uso de materiais com cadeias de reciclagem consolidadas — como alumínio e vidro — por meio de taxas menores.
Em contrapartida, embalagens mais difíceis de reciclar podem ter custos mais altos, direcionando o design das embalagens para opções compatíveis com os sistemas existentes em larga escala.
Embalagens flexíveis enfrentam mais desafios do que latas
As embalagens flexíveis, comuns em alimentos para pets, são uma das maiores dores de cabeça quando o assunto é reciclagem.
Geralmente compostas por múltiplas camadas ou materiais combinados, elas oferecem excelente desempenho de barreira, maior vida útil e resistência, mas são difíceis de separar e processar com os métodos tradicionais de reciclagem.
A coleta também é um entrave. Nos Estados Unidos, apenas cerca de 2% das residências contam com coleta seletiva porta a porta para filmes e embalagens flexíveis.
Quando esses materiais são descartados incorretamente junto aos recicláveis comuns, podem causar contaminação e problemas operacionais, como o enrolamento dos filmes em equipamentos das centrais de triagem.
As bandejas plásticas ficam em uma posição intermediária. Muitas são rígidas e, em tese, mais compatíveis com a reciclagem mecânica do que os pouches multilaminados.
Na prática, porém, fatores como tipo de resina, cor, rótulos e resíduos de alimentos fazem toda a diferença.
Plásticos pretos, por exemplo, costumam não ser identificados pelos sensores ópticos de muitas instalações, o que reduz as chances de reciclagem mesmo quando o descarte é correto.
Latas de alumínio: vantagem estrutural, mas não perfeita
As latas de alumínio seguem como um dos materiais mais valorizados na reciclagem. Elas contam com mercados finais bem estabelecidos, alto valor de sucata e tecnologias eficientes de separação.
Além disso, não apresentam o problema da separação de camadas, típico das embalagens flexíveis de alta barreira.
Ainda assim, os índices de reciclagem estão longe do ideal. Em 2023, apenas 43% das latas de alumínio comercializadas nos Estados Unidos foram efetivamente recicladas.
O comportamento do consumidor e falhas no descarte continuam sendo fatores determinantes.
Por que parte da indústria resiste às novas leis
A adoção das leis de responsabilidade estendida do produtor não ocorre sem resistência. Empresas citam uma combinação de custos adicionais, complexidade regulatória e preocupações com governança.
Entre os principais pontos estão a transferência dos custos da reciclagem dos municípios para os fabricantes, o aumento da burocracia para quem atua em vários estados com regras diferentes e o receio de que embalagens altamente funcionais — essenciais para preservar a qualidade do alimento e reduzir desperdício — sejam penalizadas por ainda não terem reciclagem viável.
Há também críticas relacionadas à governança dos programas. Especialistas alertam que modelos mal desenhados podem concentrar decisões em organizações lideradas por produtores, diminuindo a influência dos governos locais sobre as prioridades da reciclagem.
Estados norte-americanos que já adotaram o modelo
Até outubro de 2025, sete estados dos Estados Unidos haviam aprovado leis abrangentes de responsabilidade estendida do produtor voltadas a embalagens: Califórnia, Colorado, Maine, Maryland, Minnesota, Oregon e Washington.
Essas legislações definem metas de longo prazo, exigências de reciclabilidade ou compostabilidade e mecanismos de financiamento.
A Califórnia, por exemplo, projeta arrecadar cerca de US$5 bilhões em dez anos para investimentos no sistema de reciclagem.
O movimento segue ganhando força. Estados como Nova York, Massachusetts, Nova Jersey, Illinois e Havaí discutem propostas semelhantes ou realizam estudos preparatórios, indicando uma tendência de expansão do modelo.
Prós e contras: o que a experiência prática indica
Entre os benefícios apontados por defensores estão a criação de uma fonte de financiamento mais estável para a reciclagem, maior padronização na comunicação com o consumidor e incentivos diretos para que as empresas adotem embalagens mais recicláveis.
No setor pet, embalagens com cadeias já consolidadas, como as latas de alumínio, podem se beneficiar de taxas menores.
Ao mesmo tempo, parte dos recursos arrecadados pode ser direcionada ao desenvolvimento de soluções para embalagens flexíveis, como melhorias na triagem e criação de novos mercados.
Por outro lado, fabricantes e fornecedores destacam o aumento dos custos no curto prazo e a dificuldade de lidar com um mosaico de exigências regulatórias.
Há também o risco de mudanças aceleradas no portfólio de embalagens antes que a infraestrutura de reciclagem esteja plenamente preparada.
Fonte: Pet Food Industry, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre embalagens para pet food
O que é responsabilidade estendida do produtor?
É um modelo regulatório que torna os fabricantes responsáveis pelo financiamento da coleta, triagem e reciclagem das embalagens que colocam no mercado.
Por que embalagens flexíveis são mais difíceis de reciclar?
Porque geralmente são feitas de múltiplos materiais combinados, difíceis de separar e processar nos sistemas tradicionais de reciclagem.
Como essas leis podem impactar o mercado pet?
Elas podem influenciar a escolha das embalagens, aumentar custos no curto prazo e acelerar a adoção de materiais com melhor desempenho ambiental.
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