Manter cães e gatos calmos durante o atendimento clínico deixou de ser apenas uma boa prática comportamental e passou a ser um fator diretamente relacionado à qualidade diagnóstica e à segurança dentro da rotina hospitalar.
O estresse e o medo, quando não reconhecidos e manejados adequadamente, interferem de forma significativa na avaliação física, nos parâmetros fisiológicos e até nos resultados laboratoriais, aumentando o risco de interpretações equivocadas.
De acordo com Beatriz Ferlin, médica-veterinária do Hospital Veterinário Taquaral, o impacto do estresse vai além do comportamento.
“Alterações fisiológicas induzidas pelo medo podem mimetizar sinais clínicos de enfermidades, comprometendo a acurácia do exame e levando a decisões baseadas em dados distorcidos”, explica.
A médica-veterinária comenta que a resposta ao comportamento estressado ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, desencadeando a liberação de cortisol e catecolaminas, hormônios envolvidos no mecanismo de “luta ou fuga”.
“Esse processo pode provocar hipertensão arterial situacional, taquicardia, taquipneia, midríase e hiperglicemia transitória. Além disso, elevação da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial e leucocitose por estresse podem ser interpretados, de forma equivocada, como dor, hipertensão sistêmica ou até doenças endócrinas”, afirma a profissional.
Em exames laboratoriais, a interferência hormonal também pode comprometer a confiabilidade dos resultados. Por isso, reconhecer precocemente os sinais comportamentais do paciente é essencial antes de começar o atendimento.
“Atenção aos sinais mais frequentes, como: vocalização excessiva, tentativas de fuga, rigidez corporal, tremores, salivação intensa e agressividade defensiva”, alerta Ferlin.
Além disso, em cães, também observam-se comumente orelhas retraídas, postura corporal baixa, cauda entre os membros posteriores e ofegação intensa. Já em gatos, midríase, orelhas achatadas lateralmente, postura encolhida, arqueamento do dorso e tentativas de esconder-se são manifestações clássicas.

Segurança da equipe e do paciente
Além do impacto no diagnóstico, o estresse também aumenta a possibilidade de acidentes durante o atendimento.
Reações defensivas e agressivas podem resultar em mordidas, arranhões e contenção física inadequada, colocando em risco a equipe, os responsáveis e o próprio animal.
“O manejo inadequado do medo frequentemente leva à necessidade de contenções mais intensas, o que agrava o comportamento e compromete a biossegurança do ambiente clínico”, destaca Beatriz.
Diversas estratégias de low stress handling podem ser incorporadas à assistência sem prejuízo ao tempo de consulta.
Em cães, por exemplo, o uso de reforço positivo, petiscos, elogios e movimentos lentos e previsíveis favorece a cooperação e reduz a ansiedade.
Para felinos, o conceito cat friendly é fundamental. A utilização de feromônios sintéticos, manipulação mínima, controle suave com toalhas e respeito ao tempo de adaptação ao ambiente fazem diferença significativa.
“Sempre que possível, a realização do exame dentro da caixa de transporte também ajuda a minimizar o desconforto emocional. Essas práticas, além de melhorarem a experiência do paciente, facilitam a execução do análise físico e de procedimentos como coleta de sangue”, conta a médica-veterinária.
Contenção química e orientação aos responsáveis
Em situações de agressividade intensa, medo extremo ou impossibilidade de contenção física segura, o controle químico torna-se um aliado importante.
“Seu objetivo é reduzir o estresse e permitir a realização tranquila de procedimentos diagnósticos ou terapêuticos”, explica.
Diferentemente da anestesia geral, essa abordagem envolve, na maioria dos casos, sedativos ou ansiolíticos em doses controladas. Porém, é importante lembrar que a escolha do fármaco deve considerar espécie, idade, condição cardiovascular, estado clínico e duração do procedimento, sempre priorizando o bem-estar e a segurança.
A preparação do animal antes da consulta também influencia diretamente o comportamento durante o atendimento.
“Por isso, oriente os responsáveis sobre horários com menor fluxo, estratégias de transporte menos estressantes e uso de reforço positivo para reduzir a ansiedade desde o deslocamento”, conclui a médica-veterinária.
Em casos específicos, pode-se indicar o uso prévio de ansiolíticos ou moduladores comportamentais administrados em casa, tornando a consulta mais tranquila e produtiva.

FAQ sobre a importância de deixar pets calmas durante o atendimento
Por que o estresse pode levar a erros diagnósticos durante a consulta?
Porque ativa mecanismos hormonais que alteram parâmetros fisiológicos e laboratoriais, como frequência cardíaca, pressão arterial, glicemia e contagem leucocitária, podendo simular doenças inexistentes.
Quais sinais indicam que o exame físico pode não ser confiável naquele momento?
Rigidez corporal, agressividade defensiva, vocalização intensa, tentativas de fuga e midríase são indicativos de que o estado emocional está interferindo na avaliação clínica.
Quando a contenção química deve ser considerada?
Em situações de medo extremo ou agressividade e quando a contenção física coloca em risco a equipe e o paciente.
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