A adoção por si só é um grande ato. Contudo, quando se adota um animal com deficiência o desafio e a dedicação são ainda maiores.
Por mais que historicamente cães deficientes sejam os menos buscados em ONGs, muitos ganham a oportunidade de ter um lar amoroso e uma vida digna.
Para te mostrar isso, conversamos com três mulheres, que optaram por adotar cães especiais e não se arrependem em nenhum momento dessa decisão.
Suiane e Dafne
A jornalista Suiane Moreira Freire Torres é uma dessas mulheres. Há seis anos ela adotou Dafne e hoje as duas moram na Zona Sul de São Paulo.
“Dafne era uma cachorra de rua alimentada por algumas pessoas na região onde ficava. Uma dessas pessoas notou a sua ausência quando chegava do trabalho e passou a buscar por ela. Após alguns dias a encontrou atropelada com seus filhotes. Contaram que ao buscar comida para os filhotes foi atropelada e não prestaram socorro”, comenta.
Segundo Suaiane, uma ONG resgatou Dafne e seus quatro filhotes. Após exames, constataram em todos eles Erlichiose e Cinomose. Dois dos filhotes não resistiram à Cinomose e os outros sobreviveram sem sequelas e foram adotados.
“Pouco tempo depois Dafne também encontrou uma família, com quem viveu por longos – e dolorosos – oito meses. Eles a devolveram, pois sujava a casa toda com urina e fezes e a deixavam no escritório para que isso não acontecesse”, lembra.
Nesse meio tempo Suiane adotou uma vira-lata chamada Avelã e começou a buscar um outro pet para adoção.
“Foi então que me ligaram dizendo que uma cachorrinha havia sido devolvida e me contaram a história dela. Eu me emocionei e me apaixonei instantaneamente, sem sequer ver uma foto. Combinamos de, naquele final de semana, ir ao evento de adoção para conhecê-la. Chegando lá nos apaixonamos. Enquanto eu perguntava sobre os cuidados, pois eu não fazia ideia de como seria, meu esposo questionava sobre os gastos e tratamentos. Não pensamos, apenas finalizamos a adoção e a levamos para casa”, afirma.
A jornalista relata que naquele momento o medo e a ansiedade caminhavam lado a lado, mas com o passar do tempo tudo foi entrando nos eixos.
“No começo existe um processo de adaptação e muitas pessoas acreditam ser um “bicho de 7 cabeças”, mas não é. Depois de tudo que passou na vida, Dafne confiou na gente, se entregou ao nosso amor e nos deu mais do que imaginávamos receber. De uma generosidade e paciência incrível, virou a melhor amiga da Avelã. Ela é uma cachorrinha muito amorosa. Entrou na minha vida revirando do avesso e mostrando um novo jeito de olhar para tudo e todos”, completa.

Pollyana e Noopy
Diferente de Dafne, que sofreu um acidente e se tornou deficiente, Noopy, conhecido nas redes sociais como Super Noopy, nasceu com atrofia nas patas dianteiras.

A advogada Pollyana Vilar Mayer, que também vive em São Paulo, o adotou em fevereiro de 2020, exatamente um mês antes do lockdown da pandemia.
“Hoje o Noopy tem 11 anos. Ele nasceu com uma atrofia nas duas patas dianteiras, o que nunca o impediu de nada e fez com que se adaptasse a andar com duas patas. Ele desenvolveu uma musculatura incrível, que protege a coluna e articulações mesmo ficando em posição bípede. Felizmente, não teve uma história triste como muitos cães SRD e pets com deficiência”, conta.
De acordo com Pollyana, quando o cão nasceu logo foi adotado por um casal, que cuidou dele por seis anos com muito amor. Quando não conseguiam mais ficar com ele por questões financeiras, de moradia e da vida pensaram no melhor para o Noopy e procuraram a ajuda de uma protetora.
“Uma das minhas outras filhas pet havia falecido em agosto de 2019 e no dia 31/01/2020, ainda no processo de luto, recebi uma clara mensagem, que interpretei ser ela dizendo que estava na hora de eu seguir em frente. Duas semanas após esse episódio vi a foto do Noopy procurando um novo lar na rede social da protetora e na hora soube que ele seria meu filho”, relembra.
A advogada relata que ao ver a foto notou que o cão tinha a “fussa mais feliz do mundo”.
“Foi uma conexão instantânea. Quando o conheci essa conexão se comprovou e foi recíproca”, finaliza.
Fernanda e Love
A estudante de Direito Fernanda Fernandes Magalhães também teve uma conexão única assim que viu a foto de Love, uma bulldog francês adotada há três anos.
Fernanda conta que a Love foi abandonada em frente a uma casa em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.
“Ao chegar no trabalho em uma segunda-feira, abri o Facebook e vi um vídeo em um grupo de doações/cães perdidos aqui da região. Na época eu morava em Alvorada e já tinha o INK e a Kiva, ambos bulldogs franceses. Abandonaram a Love em uma bolsa de passeio com uma cobertinha. O vídeo era dela se arrastando no piso bruto de concreto”, relembra.
A estudante comenta que naquele dia não conseguiu mais trabalhar e mobilizou sua mãe e uma amiga para adotá-la.
“Ao chegarmos na local, a Love estava com a barriga inchada, pois tem incontinência fecal e urinária e precisa de auxílio para fazer as necessidades. Assim que entramos ela veio correndo até nós, como se já soubesse que seríamos a família dela”, relata.
Para Magalhães o que mais doeu foi o olhar fixo da bulldog para a bolsa de passeio quando falou: “Vamos pra casa?”.
“Criei a conta no Instagram da Love para ajudar com os gastos fixos dela e tudo o que fosse surgindo. Hoje, é ela que mantêm as consultas, remédios e ração. Após um tempo descobrimos que a Love, possivelmente, teve uma hérnia de disco e a condição “parou” na altura das patinhas dianteiras, não afetando os órgãos vitais dela. Também acreditamos que era matriz de canil”, conclui.

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