As emergências dermatológicas não são comuns na prática clínica, mas podem existir e causar muitas dúvidas nos médicos-veterinários. Para ajudá-los nesses casos, a médica-veterinária membro do American College of Veterinary Dermatologists e professora clínica assistente em Dermatologia na Texas A&M University, Christina Gentry apresentou um guia durante a sua palestra na VMX 2026.
A VMX é a principal feira de Medicina Veterinária do mundo e, nesta edição, acontece de 17 a 21 de janeiro, em Orlando, nos Estados Unidos, oferecendo uma programação com mais de 1.200 horas de conhecimento científico.
Logo no início da apresentação a profissional pontuou que as emergências e urgências dermatológicas são raras e incomuns. Por mais que as dermatites e otites sejam dolorosas, gerem prurido e não tenham uma boa aparência, mesmo assim não configuram emergências.
“Além disso, alguns clientes apenas vão ver um veterinário naquele dia apenas porque desejam um atendimento rápido, o que não significa que é uma emergência”, pontuou.
Tudo começa pela triagem
Sempre que um paciente com alguma afecção dermatológica chega para atendimento os médicos-veterinários devem iniciar pela triagem, assim como acontece com qualquer outro caso emergencial.
Segundo Christina, o primeiro passo é definir se a doença dermatológica é aguda ou crônica. Em seguida, deve-se avaliar outros fatores como nível de energia, presença de diarreia ou vômito, apetite, frequência cardíaca e respiratória e até o uso medicamentos.
“É necessário saber sobre a ingestão de drogas, pois muitas das enfermidades dermatológicas mais severas são causadas por reações farmacológicas”, comentou.
Em seguida, passa-se pelos sinais dermatológicos, tentando diferenciá-los de acometimentos crônicos ou agudos. Conforme a veterinária, se um animal que nunca teve doença de pele estiver apresentando alterações clínicas súbitas, o quadro é mais preocupante se comparado ao de um paciente que já sofre com essas afecções há anos.
“Durante a triagem também olhamos para o nível de dor e coceira e separamos esses dois sinais clínicos, porque a coceira é mais comum em doenças de pele. Alergias e infecções bacterianas causam prurido, levando o animal a se coçar, esfregar o corpo em superfícies, rolar no chão e arrastar o traseiro. Por outro lado, a dor pode se manifestar com claudicação, andar cauteloso e tremores da pele ao tocar as áreas afetadas do corpo”, explicou.

Exame dermatológico
Passada a triagem inicial, conforme a especialista, deve-se seguir para o exame dermatológico, que pode ser realizado conforme a preferência do profissional.
“Eu inicio o exame dermatológico pela cabeça, avaliando o plano nasal, as margens labiais e o interior da boca, além da região periocular. Se houverem lesões na face e no corpo é muito mais provável que o quadro seja mais sério do que se há apenas pontos de perda de pelos na face”, alerta.
Após avaliar a cabeça do animal, pode-se examinar a região dorsal, ventral, abdominal e perianal. Já na última etapa, a recomendação é o exame de patas, unhas, coxins, braços e pernas.
Outro ponto importante do exame dermatológico citado durante a apresentação é a simetria. Ao “cortar” o animal no meio pode-se verificar a presença de lesões simétricas. A simetria é importante, pois é mais comum em doenças imunomediadas, que tendem a ser urgências e emergências.
No entanto, também ocorre em doenças de origem endocrinológica, que não são uma emergência, e em desordens de hipersensitividade. Já a assimetria é mais recorrente em doenças infecciosas.
“Então, para um quadro ser considerado emergência ou urgência é preciso que ocorra alteração em pele de forma difusa e não localizada. Se todo o animal está sendo afetado, o caso é muito mais preocupante do que quando há apenas pontos de lesão”, destacou.
Emergências dermatológicas mais comuns
Existem algumas afecções que são mais comuns na rotina das emergências dermatológicas. Para começar, a médica-veterinária citou a foliculite e a furunculose eosinofílica. Basicamente, essas são reações atípicas a picada de inseto, que acontecem, geralmente, com animais jovens, que costumam “brincar” com formigas, vespas e abelhas, por exemplo.
“Essa alteração surge de forma extremamente rápida. Quando o responsável pelo animal diz que ocorreu da noite para o dia, por mais que exista a desconfiança, nesse caso é verdade”, explicou Gentry.
A doença, geralmente, ocorre na região da face, mas não costuma afetar o plano nasal. É possível diagnosticá-la se o animal for atendido logo no início, pois na citologia se consegue ver a presença de eosinófilos. Como consiste em uma verdadeira reação de hipersensibilidade, no tratamento são indicadas doses anti-inflamatórias de corticosteroides, como a hidroxizina, por apenas algumas semanas.
Outra condição que pode ser considerada emergência dermatológica é a arterite dérmica do plano nasal. A enfermidade tem diagnóstico essencialmente clínico e acontece quando o próprio organismo do animal passa a atacar as arteríolas localizadas no centro do plano nasal, surgindo normalmente apenas naquele ponto.
É mais comum em cães de raças gigantes, como São Bernardo e Mastiff, e, se não tratada, com o tempo a pele da região começa a necrosar, passando da coloração preta para um azul-esbranquiçado pálido, depois rosada, até ulcerar e exsudar ou jorrar sangue.
“Esses pacientes podem chegar à emergência porque estão, literalmente, espirrando sangue pela frente do rosto”, citou a especialista.
Poucas condições se parecem com essa e o tratamento envolve imunomoduladores e, se houver sangramento intenso, pode-se utilizar corticosteroides.
Na palestra a veterinária também comentou sobre a paniculite, que nada mais é do que uma inflamação da gordura subcutânea com origem estéril ou infecciosa causada por microrganismos como Pythium, Lagenidium e Prototheca.
“A paniculite, geralmente, se manifesta como grandes aumentos de volume subcutâneos, que acabam ulcerando e drenando. Durante o atendimento, se ainda não tiverem ulcerado, é possível fazer uma punção aspirativa, que levará a obtenção de material líquido, às vezes purulento ou aquoso, com inflamação piogranulomatosa e com ou sem microrganismos”, esclareceu.

Emergências dermatológicas infecciosas
Na última etapa da palestra, Gentry abordou as emergências dermatológicas infecciosas, começanmdo pela foliculite e furunculose pós-banho ou pós-tosa.
Essa afecção está associada a banhos agressivos, que ocorrem com a pessoa esfregando a pele contra o sentido do pelo, levando a um trauma dos folículos. Contudo, também pode acontecer devido ao uso de shampoos ou enxágues com água contaminada.
“Essas infecções podem se disseminar rapidamente e há relatos de sepse e falência múltipla de órgãos. Os cães costumam ficar doloridos e apresentar febre. Geralmente, os sinais clínicos surgem um dia ou até uma semana após o banho ou tosa. Para diagnóstico e tratamento, o ideal é realizar cultura, pois são necessárias semanas de antibiótico, e frequentemente vemos Staphylococcus resistente e Pseudomonas. Além disso, no tratamento não devemos usar corticosteroides, mas sim medicações analgésicas“, pontuou.
Dando continuidade, foi abordada a fasciíte necrosante, que tem como agente etiológico o Streptococcus canis. A doença se inicia com inchaço de um membro e, em cerca de 36 a 48 horas, o mesmo membro dobra de tamanho, apresentando coloração arroxeada e drenagem de líquido serossanguinolento. Entre os sinais clínicos estão febre, sensação dolorosa e apatia.
Segundo a veterinária, o tratamento exige antibióticos adequados, desbridamento cirúrgico imediato e, muitas vezes, amputação. “Sem intervenção rápida, o animal pode morrer em poucos dias”, alertou.
Para finalizar a palestra, a doença em destaque foi a síndrome do choque tóxico, uma condição rara causada por toxinas de Streptococcus e Staphylococcus. Nesse caso, o problema principal não é a quantidade de bactérias, mas a resposta exagerada do sistema imune do animal, que leva a lesões com aspecto autoimunes, tal como, vesículas, bolhas e úlceras.
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