Um dos grandes desafios dos médicos-veterinários quando se fala em doença do carrapato, chamada tecnicamente de hemoparasitose, é saber diferenciar quais são os agentes etiológicos que levam a essa enfermidade.
Essa dificuldade não é à toa, pois, realmente, existe uma ampla variedade de protozoários e bactérias percursores da doença.
A médica-veterinária doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e gerente técnica do Petcare Hemovet, Simone Gonçalves Rodrigues Gomes, cita que os principais agentes etiológicos são: Ehrlichia canis, Babesia vogeli, Anaplasma platys, Rangelia vitalli, Rickettsia rickettsii, Hepatozoon canis e Mycoplasma haemocanis.
Por mais que o termo doença do carrapato seja utilizado para citar de maneira genérica as enfermidades que têm esse ectoparasita como vetor, o nome técnico da condição varia conforme o patógeno. Logo, existe, por exemplo, a babesiose, a erlichiose, a rangeliose e a anaplasmose.
Independente disso, a profissional explica que todos esses agentes podem desencadear manifestações clínicas significativas nos animais, que variam conforme a competência imunológica de cada cão.
“A erliquiose crônica é a mais comum, podendo ocasionar lesões em múltiplos órgãos, inclusive nos rins por deposição de imunocomplexos. Nela não há cura parasitológica, apenas controle clínico da doença. Ou seja, uma vez que o cão for infectado ele pode se tornar portador”, relata.
Ainda de acordo com Gomes, por outro lado, a rangeliose, normalmente, desencadeia um quadro clínica grave com risco de óbito.

Manifestações clínicas nem sempre são muito distintas
As manifestações clínicas dos animais com doença do carrapato podem ser similares independente do agente etiológico.
Dentre os sintomas mais comuns estão febre, prostração e apatia. Contudo, há algumas características diferentes.
Erlichiose
Simone comenta que, com relação a erlichiose, as manifestações variam de acordo com a fase clínica.
“Na fase aguda os sinais aparecem cerca de 15 a 20 dias após a inoculação pelo carrapato e são caracterizados por febre, hiporexia, prostração, leucocitose ou leucopenia, trombocitopenia, anemia, esplenomegalia e hiperplasia de linfonodos”, pontua.
Ainda de acordo com ela, na fase crônica os sintomas podem se manifestar após meses ou anos da inoculação da bactéria. Nesses casos pode ocorrer, além dos sinais já citados, hiperglobulinemia, uveíte, glomerulopatia, petéquias, sufusões e hipoplasia e/ou aplasia medular.
Além disso, na erlichiose é possível existir a fase assintomática, pois a Ehrlichia canis pode permanecer no baço ou na medula óssea do animal sem causar sinais clínicos. “Eventualmente, os cães apresentam hiperglobulinemia (elevação da proteína total) e leves alterações laboratoriais, como trombocitopenia, leucopenia, anemia”, complementa.
Babesiose
A babesiose também apresenta fase aguda, crônica e assintomática. Porém, conforme a médica-veterinária, a Babesia vogeli é um protozoário intracelular de hemácias, que tem baixa patogenicidade.
“A fase aguda da doença pode ocasionar febre, anemia hemolítica, trombocitopenia e prostração. Na fase crônica são vistas apenas anemia e trombocitopenia leves”, relata.
Anaplasmose
Já a anaplasmose, geralmente, causa sintomas brandos e alguns animais são assintomáticos.
“Em geral, os cães podem apresentar febre, apatia, trombocitopenia e anemia leve. As manifestações clínicas tendem a ser mais graves quando há associação com uma das hemoparasitoses, como Ehrlichia canis e Babesia vogeli”, comenta a profissional.

Como diagnosticar a doença do carrapato?
A única maneira de, realmente, descobrir qual é o agente etiológico que está causando a hemoparasitose é através de exames laboratoriais.
“Os exames mais indicados para diagnosticar a doença envolvem a associação de exames sorológicos com moleculares, como o PCR”, indica Gomes.
Ela pontua que no hemograma as alterações são semelhantes para todos os agentes etiológicos, o que não torna essa técnica conclusiva.
Existe ainda a possibilidade do esfragaço sanguíneo que, eventualmente, pode detectar os patógenos. No entanto, a recomendação é a confirmação com a PCR, complementa.
Caso não seja possível “testar” o animal para todos os agentes etiológicos, a médica-veterinária indica levar em consideração a epidemiologia da região onde vive o animal com suspeita.
“Em algumas regiões do Brasil existe uma prevalência maior de erliquiose e babesiose, então se prioriza a investigação destes agentes. Já em outras regiões, como o sul, há maior ocorrência de Rangelia e Anaplasma platys. Entretanto, diante da possibilidade do carrapato inocular mais que um agente etiológico, painéis de investigação negativos não garantem que o animal não tenha hemoparasitose”, conclui.
FAQ sobre doença do carrapato
Qual a melhor forma de prevenir a doença do carrapato?
Para prevenir que um animal se contamine com alguma hemoparasitose deve-se combinar o uso regular de produtos antiparasitários tópicos e/ou orais com o controle ambiental destes vetores.
Um animal pode se contaminar com mais de um agente etiológico?
Sim, um mesmo carrapato pode estar contaminado com mais de um agente etiológico que transmita alguma hemoparasitose.
Como é feito o tratamento da doença do carrapato?
O tratamento depende do agente etiológico que contaminou o animal. Para a erliquiose canina, anaplasmose e micoplasmose o medicamento de escolha é a Doxiciclina. Já no caso das enfermidades transmitidas por protozoários, como a Babesia vogeli e Rangelia vitalli, indica-se o Dipropionato de Imidocarb.
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