Abrindo a programação do último dia da VMX 2026, maior feira de Medicina Veterinária do mundo, que acontece de 17 a 21 de janeiro, em Orlando, nos Estados Unidos, a médica-veterinária certificada em Small Animal Internal Medicina pela University of Missouri, Laura A. Nafe, apresentou uma palestra sobre os aspectos da incontinência urinária em cães e gatos.
A incontinência urinária representa um desafio para os animais e para os seus responsáveis, sendo considerado um quadro complexo e passível de complicações. Dentre elas, está o elevado risco de infecções do trato urinário, a possibilidade do desenvolvimento de dermatite perivulvar superficial e infecção por Corynebacterium urealyticum, capaz de causar úlceras crostosas em todo o trato urinário do animal.
“Também temos pacientes que acabam sendo eutanasiados por causa da incontinência urinária. Eles são clinicamente normais, mas os tutores não conseguem lidar com a incontinência constante”, comentou.
Distúrbios associados
Existem, basicamente, dois tipos de incontinência urinária: a causada por distúrbios da fase de armazenamento e por distúrbios da fase de esvaziamento.
Segundo a médica-veterinária, o distúrbio da fase de esvaziamento é um conceito relativamente novo, que ocorre por problemas de retenção urinária, ou seja, o animal não esvazia completamente a bexiga e isso leva a episódios de vazamento posterior.
“Nesses casos, o tratamento deve ser direcionado a identificar onde está o problema, porque não faz muito sentido, por exemplo, dar prazosina a um paciente com incontinência urinária. Mas, se o problema real for retenção urinária e uma bexiga constantemente cheia que ocasionalmente vaza, então a fenilpropanolamina — que aumenta o tônus uretral — pode ser, na verdade, contraindicada”, explicou.
Dessa forma, a anatomia possui um papel fundamental para o melhor entendimento da condição. Geralmente, os animais que apresentam incontinência possuem uretra relativamente curta e a bexiga em posição mais caudal pode interferir no comprimento da uretra. Por isso, é mais comum ver quadros de incontinência em fêmeas do que em machos.
“Para que um paciente seja continente, ele precisa ter boa complacência vesical, tônus uretral adequado, anatomia normal dos ureteres (sem ureter ectópico) e controle neurológico normal da bexiga e da uretra. Se a pressão intravesical superar a pressão uretral, ocorre a micção — o que é normal quando o animal decide urinar. Porém, há fatores que fogem ao controle consciente, especialmente quando existem anomalias anatômicas”, pontuou a profissional.

Incontinência urinária x outros distúrbios
Uma parte essencial no diagnóstico da incontinência urinária é diferenciar o problema de outras alterações, como poliúria, disúria ou urgência urinária. Para isso a anamnese é fundamental, sendo necessário buscar informações sobre os hábitos urinários do animal e as alterações vistas em casa.
Também existem distúrbios neurológicos, como doenças lombossacrais, que podem causar incontinência sem sinais locomotores evidentes.
“A avaliação começa com uma boa anamnese, exame físico completo, exame retal, exame neurológico básico, observação da micção e, idealmente, avaliação do volume residual pós-miccional com ultrassom à beira do leito. O diagnóstico de incontinência é, geralmente, clínico, baseado em histórico compatível, sinalização adequada e resposta ao tratamento. O “padrão-ouro” seria um estudo urodinâmico, mas isso raramente é feito na prática”, afirmou a especialista.
Instabilidade do detrusor em cães
A instabilidade do detrusor – também chamada de hiperatividade do músculo da bexiga – é semelhante à bexiga hiperativa em humanos. Na Medicina Veterinária essa condição não está totalmente esclarecida, mas consiste na micção voluntária frequente.
Não é considerada uma causa de incontinência urinária, mas pode levar a pequenos vazamentos de urina, que imitam a Incompetência do Mecanismo do Esfíncter Uretral Canino.
“A melhor forma de diagnóstico seria com testes urodinâmicos, que quase ninguém realiza. Assim, geralmente fazemos um teste terapêutico. Outro indício é que esses pacientes podem apresentar os sinais, principalmente, durante atividade ou excitação, o que pode confundir com causas comportamentais, especialmente em cães jovens. É importante tentar excluir causas comportamentais, embora isso seja difícil”, informou Nafe.
Os fármacos utilizados para tratar a instabilidade incluem imipramina ou oxibutinina, que têm como finalidade reduzir os espasmos do músculo detrusor.
Ureteres ectópicos
Os ureteres ectópicos normalmente possuem uma apresentação clínica bastante clássica. A maioria dos animais acometidos são fêmeas jovens e geralmente inteiras.
“Elas são incontinentes desde muito cedo. É comum haver umidade constante e gotejamento de urina na região perivulvar e a gravidade da condição varia”, citou a especialista.
Infecções do trato urinário são comuns em casos de ureter ectópico e uma das formas de diagnóstico é a cistoscopia.
De acordo com Laura, é possível fazer ultrassonografia, que poderá mostrar dilatação ureteral ou da pelve renal. Em alguns casos, consegue-se visualizar o ureter passando caudalmente pelo trígono vesical e entrando na uretra. Mas, se não é vista a alteração no ultrassom, não pode-se descartar a possibilidade da doença.
“Esses pacientes frequentemente apresentam outras alterações: uretra curta, bexiga em posição pélvica, septo vaginal e redução da complacência vesical. Um grande desafio é que uma alta porcentagem de animais que permanece incontinente mesmo após a correção. Costumo dizer que cerca de 50% ficam totalmente continentes ou muito melhores apenas com o procedimento, mas os outros 50% melhoram um pouco e ainda precisam de tratamento adicional”, afirmou.
Geralmente, os casos unilaterais têm melhor prognóstico e, quanto mais cedo é feita a correção, maior é a possibilidade da urina voltar a passar totalmente pela bexiga, permitindo que ela aprenda a se distender.

Alternativas de tratamento
Descartadas todas as possibilidades, se o diagnóstico é de Incompetência do Mecanismo do Esfíncter Uretral Canino (USMI), existem algumas técnicas que podem ser empregadas para tratar a condição.
O tratamento medicamentoso costuma ser a primeira escolha e visa aumentar o tônus uretral. Dentre as possibilidades medicamentosas estão fenilpropanolamina e/ou estrogênios.
“Esses medicamentos são sinérgicos e podem ser usados juntos, se necessário, lembrando que o efeito máximo pode levar 30 a 40 dias”, explicou a veterinária.
Caso a terapia medicamentosa não surta o efeito desejado, pode-se buscar outras técnicas:
Citoscopia
Através da citoscopia é possível realizar injeções repetidas de colágeno, que visam diminuir os “escapes de urina”.
“Na Universidade do Missouri, esse procedimento acaba custando em torno de US$ 3.000. Na minha opinião, a maior desvantagem é o custo elevado e o fato de que o efeito não dura tanto tempo. Geralmente, digo aos tutores que o efeito deve durar algo entre seis e doze meses, mas sendo realista acho que dura mais perto de seis a nove meses. Contudo, nos pacientes em que já fiz injeções repetidas de colágeno, os tutores dizem que dura apenas seis meses — embora eles só me procurem novamente mais perto de 10 a 12 meses”, pontuou.
As injeções de colágeno podem ser repetidas, porém a técnica é mais indicada em animais idosos. Já para os jovens seria apenas uma forma de ganhar tempo até que sejam empregadas outras formas de tratamento para a condição.
Inserção de esfincter uretral
Outra forma de tratar a incontinência urinária é a inserção de um esfíncter uretral. Conforme a médica-veterinária, em alguns aspectos essa é uma técnica mais indicada, pois se funcionar é permanente.
“O problema é que nem sempre o esfincter faz exatamente o que esperamos. Já tive graus variados de sucesso e também várias complicações com esses dispositivos”, afirmou.
Nos Estados Unidos, esse procedimento tem o custo médio US$ 6.000. Nele, o dispositivo é conectado a um reservatório que fica na face interna da coxa ou na região inguinal. Ele funciona como um port de acesso vascular, no qual é injetado lentamente um fluído dentro do revestimento interno do dispositivo.
“O problema — e a falha do sistema — é que nem sempre conseguimos retirar o fluído que colocamos. Com o tempo, o material plástico pode dobrar ou deformar, aprisionando o líquido em algumas áreas. Já vimos pacientes que ficaram completamente obstruídos uretralmente por causa do dispositivo e eles também podem desenvolver aderências ao redor do implante”, concluiu.
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