Latidos excessivos, agressividade, ansiedade por separação e eliminação inadequada estão entre as queixas mais frequentes relatadas por tutores na rotina clínica.
Nem sempre, porém, essas manifestações têm origem apenas no manejo ou no ambiente. Nesses casos, a atuação do veterinário comportamental é fundamental para compreender o quadro de forma ampla e definir a melhor conduta.
Segundo Daniele Graziani, médica-veterinária comportamental com pós-graduação em manejo comportamental de cães e gatos pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o papel desse profissional é semelhante ao do psiquiatra na medicina humana.
“Ele avalia a atitude, o histórico do animal e o contexto em que vive para identificar as causas das alterações”, explica Daniele.
As queixas atendidas no consultório do médico-veterinário comportamental podem envolver desde ações naturais da espécie, que precisam apenas de orientação adequada, até mudanças associadas à dor, doenças sistêmicas ou transtornos comportamentais que exigem intervenção terapêutica, incluindo o uso de psicofármacos.

Quando o encaminhamento é indicado
Entre os exemplos para o encaminhamento ao especialista estão agressividade, lambedura excessiva, perseguição do próprio rabo, reatividade, ansiedade generalizada, ansiedade por separação, eliminação de urina ou fezes fora do local adequado, insegurança extrema, conflitos entre animais da mesma casa, coprofagia e quadros de cistite recorrente em gatos sem causa clínica evidente.
“Essas situações exigem uma avaliação especializada, pois podem envolver fatores emocionais, ambientais e até condições clínicas associadas”, ressalta Daniele.
De acordo com a profissional, o tratamento na medicina veterinária comportamental não se baseia em uma única estratégia; a conduta envolve uma abordagem multimodal, que começa com uma avaliação clínica completa para investigar possíveis causas orgânicas do comportamento, incluindo exames complementares quando necessário.
“O uso de psicofármacos pode ser indicado em alguns casos, sempre associado à orientação de manejo e ao adestramento baseado em reforço positivo, com a participação de toda a família”, afirma Daniele.
O enriquecimento ambiental também faz parte do processo, pois estimula atitudes naturais da espécie e reduz o impacto do estilo de vida urbano.
Alguns veterinários comportamentais também realizam o adestramento, enquanto outros atuam em parceria com profissionais especializados, respeitando as particularidades de cada caso.
Diagnóstico é de exclusão
Diferenciar uma alteração de ações de um problema com origem médica é uma das principais competências desse campo de atuação.
Daniele explica que o diagnóstico comportamental é feito por exclusão: “Na ausência de mudanças clínicas, com base no histórico e na atitude observada, é possível confirmar um transtorno”.
Exames como análises de sangue ou radiografias podem ser solicitados para descartar causas orgânicas antes de definir o diagnóstico definitivo.
Legenda da foto: O tratamento é multifatorial e envolve os tutores também (Foto: Reprodução)
Tempo de resposta e prevenção
É importante ressaltar que a resposta ao procedimento comportamental não é padronizada.
Em alguns quadros, orientações iniciais já promovem melhora significativa após uma única consulta. Em outros, o acompanhamento pode se estender por meses ou até anos.
“O tutor precisa ser direcionado quanto a expectativas realistas. Algumas condições não são totalmente resolvidas, mas controladas ao longo do tempo”, destaca a veterinária.
Em determinadas situações, o animal pode necessitar de acompanhamento contínuo, com manejo ambiental, medicação ou ambos.
Por isso, a prevenção de problemas comportamentais pode e deve começar cedo.
Durante consultas de rotina, o clínico-geral pode orientar sobre adestramento baseado em reforço positivo, socialização adequada, dessensibilização ao toque e aprendizado de comandos básicos.
A médica-veterinária ressalta que a fase crítica de socialização em cães ocorre até aproximadamente quatro a cinco meses de idade.
“Após esse período, estímulos desconhecidos tendem a gerar medo ou rejeição”, conclui Daniele.
O isolamento nessa fase, o desmame precoce e a castração muito antecipada podem impactar negativamente a atitude, favorecendo quadros como ansiedade por separação e reatividade.
Por isso, a indicação da castração deve ser individualizada, considerando porte, sexo e contexto do animal.

FAQ sobre veterinário comportamental
O que faz esse veterinário?
É o profissional responsável pelo diagnóstico, prevenção dos transtornos comportamentais em animais, avaliando a atitude recorrente, histórico e contexto para identificar as causas das alterações.
Quando o clínico-geral deve encaminhar o caso?
Sempre que houver queixas persistentes ou de difícil manejo, como agressividade, ansiedade por separação, eliminação inadequada, comportamentos compulsivos ou conflitos entre bichos de estimação da mesma residência.
O tratamento é rápido?
Depende do caso. Algumas situações apresentam melhora após orientações iniciais, enquanto outras exigem acompanhamento prolongado, com manejo ambiental, medicação ou ambos, conforme a necessidade.
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