Entre os desafios mais frustrantes da odontologia veterinária, a gengivoestomatite crônica felina (GECF) ocupa um lugar de destaque. A enfermidade, marcada por intensa inflamação da mucosa oral, ainda hoje impõe dilemas terapêuticos e limitações clínicas.
“É uma doença que nos deixa frustrados”, reconhece Vanessa Carvalho, médica-veterinária com mais de 25 anos de atuação na área e referência em odontologia veterinária. “Estudamos tanto tempo para salvar dentes e, no final das contas, a única alternativa efetiva para muitos pacientes é a exodontia total ou quase total.”
A conduta, ainda que respaldada pela literatura científica, costuma gerar resistência entre tutores e até entre profissionais. “Precisamos convencer o tutor de que essa é, muitas vezes, a melhor solução para o paciente”, comenta a especialista. “E, mesmo assim, nem todos os animais melhoram completamente após a extração dentária.”
A gengivoestomatite crônica felina é caracterizada por uma resposta imunomediada exacerbada, em que o sistema imune do gato reage de forma desproporcional frente a estímulos inflamatórios da cavidade oral.
“É um processo imunológico descontrolado, em que o animal desenvolve inflamações intensas e generalizadas, muitas vezes em mucosas distantes dos dentes”, explica Vanessa. “Nenhum gato deveria ter inflamação de mucosas apenas por acúmulo de cálculo (acúmulo de placa bacteriana, que endurece e se transforma em tártaro – cálculo dental), mas nesses casos algo a mais está acontecendo.”
Entre os agentes relacionados ao desenvolvimento da doença, o calicivírus felino aparece com destaque. “Alguns estudos mostram presença do vírus em até 80% dos casos”, cita a veterinária. “Embora muitos tutores evitem o custo adicional dos testes, saber se o paciente é portador do calicivírus é importante para o prognóstico — esses animais tendem a ter lesões mais severas e úlceras linguais.”
O diagnóstico diferencial é essencial, já que quadros como gengivite juvenil, periodontite precoce e hiperplasia gengival podem simular aspectos semelhantes nos estágios iniciais.
“O exame clínico detalhado é fundamental, especialmente na diferenciação entre inflamações restritas à gengiva e aquelas que ultrapassam a linha mucogengival, comprometendo mucosas laterais e fauces”, pontua.
Para Vanessa, a correta classificação do quadro é o primeiro passo para uma conduta responsável e baseada em evidências. “O diagnóstico histopatológico é uma ferramenta importante, não apenas para confirmar a GECF, mas também para descartar outras doenças inflamatórias ou neoplásicas da cavidade oral”, observa.
Complexidade etiológica e desafios no prognóstico
Embora o calicivírus felino seja o agente mais frequentemente associado à gengivoestomatite crônica felina (GECF), outras viroses também podem influenciar a gravidade e o prognóstico dos casos.
“O vírus da leucemia felina e o da imunodeficiência felina também podem estar presentes, embora apareçam com menor frequência nos levantamentos científicos”, explica Vanessa Carvalho. “Esses animais, quando portadores de FeLV, costumam apresentar lesões menos proliferativas e menor incidência de reabsorções dentárias.”
“Saber quais agentes estão envolvidos ajuda a ajustar o prognóstico e orientar o tutor de forma realista”, acrescenta. “Costumo dizer que, de cada dez animais tratados, sete evoluem bem, mas três mantêm lesões persistentes — e muitas vezes esses três são justamente os que têm alguma virose associada.”
Ainda que as infecções virais não sejam a causa primária da doença, atuam como fatores sinérgicos, potencializando a resposta inflamatória e tornando o controle clínico mais difícil. Essa reação exagerada não se limita à cavidade oral:
“Muitos desses gatos apresentam repercussões sistêmicas. Cerca de 60% têm hipergamaglobulinemia, aumento de linfócitos CD8, elevação de citocinas e fator de necrose tumoral circulante”, descreve Vanessa. “Ou seja, a inflamação é sistêmica. E, segundo a literatura, até 98% desses pacientes também apresentam esofagite, o que explica a dificuldade de alimentação e o emagrecimento progressivo.”
O ambiente em que o gato vive também é determinante. A especialista destaca que a superpopulação e o estresse social aumentam significativamente a incidência da doença.
“Mesmo em lares com apenas dois ou três gatos, o desconforto por compartilhamento de espaço pode ser suficiente para desencadear o quadro”, alerta.
Outros agentes, como bactérias e vírus pouco estudados — entre eles Tannerella, Pumapillomavirus e Bartonella — são citados em publicações internacionais, embora ainda sem comprovação de papel determinante.
Para Vanessa, a placa bacteriana continua sendo o principal gatilho inflamatório. “Acreditamos que a placa estimule a inflamação gengival, que depois se espalha para outras regiões da boca. Por isso a extração total é, até hoje, o tratamento mais eficaz: sem dentes, não há acúmulo de placa”, afirma.
A prevalência estimada da doença é alta: até 26% da população felina pode desenvolver gengivoestomatite em algum grau. O diagnóstico histopatológico segue como ferramenta de confirmação e diferenciação.
“Na biópsia, observamos infiltrado de linfócitos, plasmócitos e mastócitos, que funcionam como biomarcadores da inflamação. Quando há dúvida, recomendo coletar material — especialmente se as lesões forem assimétricas”, orienta.
Em muitos casos, há também associação com reabsorção dentária do tipo 1, de natureza inflamatória, o que agrava o quadro doloroso. “Alguns pacientes desenvolvem proliferações tão intensas que chegam a ter dificuldade para deglutir ou respirar. Já precisei recorrer a terapia a laser e até a traqueostomia para evitar o óbito”, relata a palestrante.
Os sinais clínicos mais relatados pelos tutores incluem halitose, perda de apetite, dificuldade de mastigação, emagrecimento e sialorreia aparente.
“Na verdade, o gato não produz mais saliva, ele apenas não consegue engolir”, esclarece Vanessa. “São animais apáticos, desidratados, que muitas vezes já passaram por múltiplos protocolos antibióticos sem sucesso.”
Esse histórico de tratamentos clínicos prolongados é um dos principais entraves ao sucesso terapêutico. “Quanto mais crônico o processo, mais difícil é reverter a ‘memória inflamatória’ da mucosa. E, infelizmente, ainda há resistência de alguns clínicos em encaminhar precocemente para o dentista veterinário”.


