O tratamento do Complexo Gengivite Estomatite Felina está longe de ser algo simples. Como a doença tem caráter multifatorial, diferentes condutas podem ser adotadas para minimizar os seus sintomas e melhorar a qualidade de vida dos animais acometidos.
“Tratar a Gengivoestomatite Crônica Felina (GECF) é desafiador e a conduta instituída deve ser individualizado e ter como foco o controle da inflamação, alívio da dor e remoção de estímulos antigênicos crônicos”, explica Juliana Kowalesky, que é coordenadora da equipe de odontologia do Hospital PetCare, Mestre e Doutora pela FMVZ USP e coordenadora e professora de pós-graduação em Odontologia e Cirurgia Oral veterinária.
De acordo com a profissional, a base terapêutica mais eficaz comprovada na literatura é a extração dentária parcial ou total, pois o biofilme e os antígenos associados ao tecido periodontal parecem perpetuar a resposta imunomediada.
Contudo, é possível realizar outras tentativas para tratar, mesmo que de forma coadjuvante essa condição, um exemplo é o emprego de dietas hipoalergênicas.
“Embora a dieta não seja fator causal direto da GECF, ela pode atuar como agente modulador da inflamação ou como gatilho antigênico secundário, especialmente em pacientes com hipersensibilidade alimentar. As dietas hipoalergênicas têm sido utilizadas em alguns protocolos como terapia de suporte, principalmente em casos refratários”, relata.

Por que fazer a extração dentária?
Juliana afirma que a extração dentária deve ser recomendada imediatamente após o diagnóstico do Complexo Gengivite Estomatite felina e aumenta a chance de sucesso na resposta ao tratamento.
“As extrações podem ser parciais, removendo todos os dentes pré-molares e molares, ou totais, no qual são extraídos os dentes pré-molares, molares, caninos e incisivos. A decisão entre essas duas alternativas se baseia na extensão e gravidade das lesões”, pontua.
De acordo com ela, adiar a extração em favor de tratamentos exclusivamente medicamentosos, especialmente o uso crônico de corticosteroides sistêmicos, representa uma conduta inadequada, que oferece apenas alívio temporário, mascarando a dor e agravando o quadro ao longo do tempo.
“Estudos demonstram que aproximadamente 60% dos gatos submetidos à exodontia parcial apresentam remissão clínica completa, enquanto outros 20% a 30% melhoram significativamente, embora mantenham sinais clínicos residuais leves. No entanto, cerca de 15% a 25% dos pacientes não apresentam resposta clínica satisfatória após a cirurgia, mesmo com extração completa dos dentes e cuidados pós-operatórios adequados. Esses animais são classificados como casos refratários”, cita.
A especialista explica que a exodontia deve ser realizada com técnica precisa e sempre acompanhada de radiografias intraorais.
Esse recurso é fundamental para confirmar a remoção completa dos dentes e suas raízes, já que fragmentos radiculares remanescentes podem manter o estímulo inflamatório, comprometendo a resposta clínica e favorecendo a refratariedade do tratamento.
“Os casos refratários de Gengivoestomatite Crônica Felina (GECF) são àqueles em que o paciente mantém sinais clínicos moderados a graves — como dor oral persistente, inflamação intensa na região caudal da cavidade oral, hipersalivação, halitose e disfagia — por um período superior a quatro ou seis meses após a realização de exodontia parcial ou total, mesmo com cuidados pós-operatórios adequados e analgesia apropriada”, relata.
Esses pacientes não apresentam resposta clínica satisfatória à intervenção cirúrgica isolada e exigem uma abordagem terapêutica mais complexa e de longo prazo.
Conscientização dos responsáveis é fundamental
Segundo a médica-veterinária, é fundamental que o responsável pelo animal seja informado desde o início que, embora a exodontia ofereça boa taxa de sucesso, existe uma parcela de gatos — estimada entre 15% e 25% — que não responde adequadamente ao tratamento cirúrgico.
“Esses animais podem continuar apresentando sinais clínicos importantes e necessitar de manejo crônico com uso prolongado de imunomoduladores e analgésicos”, pontua.
A profissional ainda completa que essa comunicação prévia é essencial para alinhar expectativas, garantir o engajamento do tutor e evitar frustrações, além de permitir decisões éticas e conscientes sobre o plano terapêutico e a qualidade de vida do paciente.
Além disso, a presença de FIV e FeLV em gatos com gengivoestomatite crônica está associada a pior prognóstico, pois as retroviroses comprometem a resposta imunológica do felino, favorecem a persistência da inflamação e aumentam o risco de infecções secundárias.
“A imunossupressão provocada por esses vírus dificulta a resposta ao tratamento, reduz a eficácia das terapias imunomoduladoras e prejudica a cicatrização, tornando o controle clínico mais difícil e os resultados terapêuticos menos previsíveis”, alerta.

Terapias coadjuvantes no tratamento do Complexo Gengivite Estomatite Felina
Por mais que a extração dentária seja a principal recomendação de tratamento do Complexo Gengivite Estomatite Felina, para casos refratários existem algumas alternativas disponíveis.
“Dietas hipoalergênicas voltadas para modulação da inflamação sistêmica podem ser adotadas. Exemplos são alimentos com ácidos graxos ômega-3 (EPA/DHA) com ação anti-inflamatória e inclusão de nutracêuticos e suplementação com antioxidantes para atenuar o estresse oxidativo crônico presente na mucosa oral inflamada”, afirma Juliana.
Kowalesky também cita novas abordagens terapêuticas, como laserterapia de baixa intensidade, laser de CO₂, uso de canabinoides e a aplicação de células-tronco mesenquimais.
“Essas terapias têm sido investigadas como alternativas adjuvantes no tratamento da gengivoestomatite crônica felina. Embora estudos preliminares sugiram potencial benefício no controle da dor, da inflamação e na modulação imune, elas ainda estão em fase de pesquisa clínica e carecem de validação definitiva em larga escala”, conclui.
FAQ sobre o tratamento do Complexo Gengivite Estomatite Felina
O Complexo Gengivite Estomatite Feline tem predisposição etária ou racial?
Essa condição acomete, geralmente, gatos com idade entre dois e sete anos. No entanto, pode ocorrer em animais idosos ou filhotes. As raças mais predispostas são siamês, persa, maine coon e outras de linhagens puras.
Como diagnosticar a doença?
O diagnóstico do Complexo Gengivite Estomatite Felino é clínico e baseado na anamnese e em um conjunto de achados clínicos e anatomopatológicos, pois não há um teste específico que confirme a doença. Contudo, quando o quadro clínico é atípico e a resposta ao tratamento é insatisfatória ou há suspeita de neoplasias indica-se o exame histopatológico de biópsia da mucosa oral.
A escovação dentária ajuda a prevenir esta condição?
Não, por mais que a escovação dentária diária seja a forma mais eficaz de controle da placa bacteriana e do biofilme dental, que são fatores importantes no desencadeamento e agravamento da doença, quando o quadro clínico já está instituído ela não pode ajudar.
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