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COMDOR 2025: Veterinária intervencionista em pauta

Camila Santos, de Campinas (SP) O Congresso Medvep de Dor e Anestesiologia Veterinária (COMDOR 2025), realizado de 31 de julho a 2 de agosto no Expo Dom Pedro, em Campinas/SP, reuniu especialistas de diversas áreas para discutir um dos pilares mais complexos da medicina veterinária: a dor. No Painel 4 — Intervenção e Medicina Veterinária […]

Camila Santos, de Campinas (SP)

O Congresso Medvep de Dor e Anestesiologia Veterinária (COMDOR 2025), realizado de 31 de julho a 2 de agosto no Expo Dom Pedro, em Campinas/SP, reuniu especialistas de diversas áreas para discutir um dos pilares mais complexos da medicina veterinária: a dor. No Painel 4 — Intervenção e Medicina Veterinária Regenerativa — o médico-veterinário Lucas Pimentel, com atuação destacada em anestesiologia, tratamento da dor e cuidados paliativos, apresentou a palestra “Medicina Veterinária intervencionista da dor: onde estamos e para onde estamos indo?”, propondo uma profunda reflexão técnica e ética sobre o futuro da prática clínica.

Com mais de 140 anos desde a primeira intervenção analgésica em um animal, realizada por um médico com uso de epidural toracolombar e cocaína em 1885, Pimentel contextualizou a evolução histórica dos procedimentos intervencionistas. Desde os bloqueios por conhecimento anatômico, nos anos 1980 e 1990, passando pela introdução dos neurolocalizadores no final dos anos 1990 e o uso de ultrassom nos anos 2000, até os recentes avanços com inteligência artificial a partir de 2022, a trajetória da medicina veterinária tem sido de rápida aproximação com os recursos da medicina humana.

Mas essa evolução técnica, segundo o palestrante, exige consciência crítica: “Não adianta postar vídeo no Instagram se o paciente não está ganhando com isso. Nosso compromisso é com ele — que está num quarto escuro, sem falar, e precisa da nossa intervenção para encontrar a luz no fim do túnel”.

Com sala cheia, Lucas Pimentel promoveu uma reflexão técnica e ética sobre o futuro da prática clínica (Foto: FeedFood)

A analogia do “labirinto escuro” foi central em sua fala, ressaltando a dificuldade de avaliar e tratar a dor em animais que não verbalizam. “Nosso diagnóstico é mais complexo. Precisamos ser peritos em anatomia, entender o tipo de dor predominante e, principalmente, saber quem é o nosso paciente”, reforçou. Para Pimentel, cada caso exige avaliação personalizada e conhecimento aprofundado da dor — se nociceptiva, neuropática ou mista — para escolher a melhor técnica ou bloqueio.

Ao abordar os bloqueios loco-regionais, o palestrante destacou sua importância tanto para dor aguda quanto crônica, inclusive como estratégia de “reset” da dor — interrompendo as vias de transmissão e modulando a hiperexcitabilidade da medula espinhal. “É possível reorganizar circuitos neurais e devolver conforto ao paciente. Fisioterapia tem papel fundamental nesse processo, mas o bloqueio bem executado pode ser o ponto de virada no manejo da dor crônica”, afirma o especialista em sua palestra no COMDOR.

Entre as técnicas discutidas, Pimentel deu ênfase à epidural sacrococcígea com corticoides e morfina, utilizada com sucesso em pacientes com estenose degenerativa lombossacra e síndrome da cauda equina. Embora o protocolo ideal preveja três aplicações, reconheceu as limitações da rotina clínica e destacou que mesmo uma única aplicação pode trazer grande alívio. “Os resultados são visíveis já na primeira intervenção. Mas para isso, é preciso ter preparo técnico, acesso a equipamentos e romper com o conservadorismo clínico”, pontua.

O palestrante também abordou barreiras que ainda dificultam a implementação das técnicas intervencionistas na prática cotidiana, como formação técnica limitada, alto custo de equipamentos e resistência cultural. “A frase ‘sempre fiz assim e deu certo’ ainda ecoa nos corredores das clínicas, mas isso não é ciência. A medicina veterinária precisa ser baseada em evidências, e não em achismos”, critica.

Lucas Pimentel deixou um chamado à responsabilidade e ao compromisso com o bem-estar animal. “O futuro da medicina intervencionista é promissor. Mas só vale a pena se ele for construído em benefício direto do paciente. Tudo começa com uma pergunta: ele está ganhando com isso?”, conclui.

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